21.7.04

A Ave

Eu que sou feio
mil vezes infecto
matéria de lodo opaco
irremediavelmente atada ao chão
sempre coberto de pó
tanto pó que chega a entranhar na alma

Eu que olho para o alto
somente por considerações meteorológicas
precisado como sou dos olhos para vigiar buracos
colocados à frente, atrás e dos lados
que tenho mão boas apenas
para cavar a terra em valas
e acumular calos amarelados

Infinitamente desajeitado

Quisera um dia matar a ave vaidosa
que só faz semear músicas ao vento
enquanto multiplica a quentura do sol
pelo número de penas cor de cobre
alinhavadas à cinzel naquele corpo
inteiro feito de assombros

O pau de que me servi
As pedras que atirei
As injúrias que gritei;
O nó que engoli;

Foram todos perdidos quando ela
num fácil bater de asas
envolveu-se no enorme manto azul do céu que lhe servia de adorno
e nele escondeu de mim para sempre
sua forma, sua cor e seu som

 

Um comentário:

Angelina disse...

adorei o final!