14.5.17

Para Lina

E agora fomos multiplicados por quatro. Você e nós três que estamos sob os cuidados de seu olhar atento. Sempre ao alcance do som de sua voz. Seguimos, juntos, o fluxo caprichoso do rio que nos trouxe até aqui. 

Chegamos não sem acidentes, mas, também, não de forma totalmente improvisada, nesta praia transitiva que sumirá até próxima maré. Nela celebramos juntos e felizes os desdobramentos da vida que escolhemos e, também, da que não teríamos como escolher. Onde celebramos que somos quatro e estamos ligados por uma peculiar forma de gravidade que nos faz convergir uns na direção dos outros. 

E que sorte imensa a nossa que recebemos você nessa trama de (in)escolhas feitas às cegas.

Te amamos como esposa e mãe 




31.8.16

O fim de agosto

Haverá amanhã.
Inevitavelmente,
inequivocamente,
haverá amanhã.

E, com ele, chegará o fim de agosto.

O sol vai nascer.
Inevitavelmente,
inequivocamente.
Se ele explodirá em luz
ou sitiado de nuvens?
É questão que o amanhã responderá a seu tempo.

O amanhã é um personagem caprichoso
que não leva em conta as opiniões alheias.

Cuidaremos de nossos filhos,
no amanhã que tivermos.
Cultivaremos nossos jardins,
no amanhã que tivermos.
Pintaremos nossas casas,
no amanhã que tivermos.

Pisaremos em espinhos,
seremos feridos,
engoliremos a seco
os corações partidos que teimam em pulsar
no peito aberto.
Quando for esse o amanhã que tivermos.

Enfrentaremos o amanhã
que o amanhã nos apresentar.
(Sobre)viveremos como quisermos e como pudermos.
Foi assim que (sobre)vivemos a tanto agosto.

Eu estarei lá,
no amanhã,
esperando por você,
por nossos amigos
e pelos muitos companheiros
que ainda nem conheço,
mas que, como nós, reconhecem no amanhã
o ponto para o qual as paralelas convergem
inevitavelmente,
inequivocamente.

Haverá amanhã.
E haverá ainda outros agostos.

Mas amanhã,
aconteça o que acontecer,
este agosto chega ao fim.

28.7.16

Senhor de Si

Onde, Senhor de Si, vai?
Com estes olhos vazios
(de encantamento),
este cansaço denso estampado
na máscara de couro
que tomou o lugar de seu rosto?

Esse corpo esmagado sob a laje de concreto
...do dia após dia após dia...
quebrado, desconjuntado
e recondicionado em formatos pouco naturais

Qual sua rota de fuga?
O plano B de seu lado A?
Sua cavalgada rumo ao pôr do Sol?

Há muito que você passou do The End
mas a estrada não terminou...

Seu mundo
deixou de ser planície e horizonte aberto
virou selva
virou caverna
virou labirinto

Ensimesmado das responsabilidades de adulto que carrega
quase em silêncio
quase sem nostalgia
daquele outro que ficou para trás

O hoje
é necessário
e há honra em cada cicatriz
e a dignidade do suor em cada metro percorrido

E há futuro pela frente
embora ele já não tenha (como nos tempos da inocência) um formato conhecido

7.3.16

O homem de madeira

São fundas,
                   muito fundas mesmo,
                                                       as raízes do Homem de Madeira
que permanece de pé onde sua semente primeiro brotou
desde que sua semente primeiro brotou.

Seus tendões e músculos
para sempre retesados.

Olha insistentemente na direção
em que cresceram as flores de seus olhos.

Vislumbrando o mistério permanente
de se é para lá que deve ir juntar-se ao futuro;
ou se foi de lá que vieram seus antepassados.

São fundas suas raízes. É gretada a sua pele.

Por esses rasgos feitos de passado e de sol,
se depositam partículas finíssimas de poeira da terra.
Acumuladas pela paciência das décadas.
E das coisas que, porque nunca souberam de si mesmas,
são infinitamente livres.

São fundas
                   muito fundas mesmo
                                                      as raízes
                                                                     no diálogo com a água
                                                                                                          que trava no escuro dos escuros.

O Homem de Madeira
tem dedos finos como garras
com as quais arranha a superfície sedosa da brisa

E uma boca muda que murmura
cantigas falando de coisas esquecidas
por serem ameaçadoras demais
para o disperso e frágil mundo dos que se movem e se agitam
de um lado para outro

Cantigas assustadoras
Para quem não tem a benção de músculos e tendões duros como madeira
e pele espessa
e garras afiadas
e raízes fundas
                         muito fundas mesmo

21.9.15

(de)VOLTA

Ao apagar das luzes
resta no céu ainda uma estrela opaca
de quinta geração que,
num pano de fundo imponderavelmente antigo, permanece
à espera de troco numa contabilidade cármica impossível de fechar.

Toda feita de suspiros, memórias de terceira mão e átomos de elementos pesados
decaídos. A estrela acumula os escombros de um universo a caminho do fim.

Não tem medo
Isso já passou
Não está solitária
Isso já passou
Não está melancólica ou furiosa ou frustrada
Isso já passou
Não está orgânica
porque já não é mais tempo para saltitantes coisas vivas
Mesmo a perene Ordem Mineral
está sendo, aos poucos, dissolvida
pelas ondas do Mar Entropia
que circunscreve tudo
com sua névoa rarefeita 
e indistinta de esterilidade
que espalha, enfim, a paz definitiva

Resta a essa estrela um sorriso irônico
quase esquecido de si
porque ela guarda na manga da camisa
o último 5 de copas

Não que isso possa reverter a ordem das coisas,
mas, no fim, permitirá que seja sua a última palavra.

Se o princípio coube ao verbo,
que o final seja um expletivo.

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Depois de muito (muito tempo) afastado desse espaço. Estou de volta. Não sei se em definitivo, mas, pelo menos, por alguns tempos.

Fiz algumas modificações no texto para deixá-lo um pouco mais de acordo com a imagem inicial da qual parti. Mudei um tanto a imagem da Entropia fazendo dele um mar que vai lavando os castelos de areia da realidade. Tb removi a imagem do Valete de Copas para que não achem que havia alguma imagem romântica cifrada (esse poema é sobre coisas e não pessoas) e modifiquei a imagem redenção que a posse dessa cartada final coloca no texto.

17.12.13

Outra Pessoa

Conheci outra pessoa
que vestia sua pele,
a boca falando palavras que não eram as suas
e o coração batia sentimentos estranhos

Ela tinha os olhos certos,
mas olhar errado.

A voz estava correta.
Mas não os timbres
e nem as inflexões.

Essa pessoa que conheci,
ocupando o espaço onde seu corpo deveria estar,
era legião

Desesperada-eufórico / frágil-forte / bela-feio / amável-odiosa / tola-sábio / velho-moça / violenta-pacífico / medonho-sedutora / cheia-vazio / feminino-masculina...
Ela chorava-gargalhava simultaneamente...
Amontoando coisas contraditórias entre si
para fazer caber de tudo
em seu rosto multifacetado
que era pintado de cores inéditas
(para as quais não havia nomes)
e sulcado de texturas irresolutas,
como ondas
que não se decidiram entre calmaria ou tempestade

E essa pessoa que conheci
reluzia no escuro
onde vivia verdadeiras vidas falsas
cheias de um encantamento
que exalava
em falas que calavam
e silêncios potentes

O mundo inteiro gravitava ao redor
esperando uma palavra sua que o autorizasse a existir
ou o obrigasse a se desfazer

Solve et coagula

De repente, esse outro já nem era uma pessoa.  Era um coelho em fuga e era uma nuvem e era um lagarto ao sol e era um cão e era uma mesa de laca vermelha e era o arrependimento dos pecadores e era os ossos doloridos de uma senhora velha e era uma faca enferrujada e era o tilintar de copos de cristal e era um suspiro e era o aroma de uma flor amarela e era o som da chuva num teto de zinco e era o desespero de um estômago vazio e era o passo silencioso de um gato caçando e era o sonho que ainda não nasceu. E era o passado e era o futuro.

E era a atriz no palco.
O Alfa. O Omega.

Conheci outra pessoa.
Só que ela se desfez em aplausos e deixou de existir

no mesmo instante em que reencontrei você.

- Escrito em homenagem à formatura de minha esposa – e mãe de minha filha não nascida – no curso de teatro.

22.8.12

O SEGUNDO


O SEGUNDO

trazendo folhas nos bolsos
(sobre)vivemos (a)o segundo
que perdura
e nos soterra em inflexível sucessão

tempo é pó caindo
que mansinho sedimenta
d
  e
   v
    a
     g
      a
       r
sobre tudo
até formar camada
que aplaina as quinas vivas

sob o homogêneo há silêncio
calmaria, sombra e sono

na boca trazemos sementes
teimosas
que contrariam a natureza da superfície
lançando brotos
em desafio ao sol

na planta dos pés
temos raízes
firmadas na eternidade dos segundos
que perduram

(sobre)vivemos (a)o segundo
e temos o coração em flor